
Título: The Memory Keeper´s Daughter (O Guardião de Memórias)
Autor: Edwards, Kim
Tradução: Vera Ribeiro
Editora: Sextante
Ano: 2007
Esse domingo não foi um dia ensolado. A chuva que caiu aos poucos e insistentemente me fez ler as 360 páginas de O Guardião de Memórias. Ainda não sei se foi realmente a chuva que me fez lê-lo ou se uma profunda incerteza sobre a vida e uma vontade de apertar o botão de pausa sobre ela.
Certa noite com muita neve, Norah entra em trabalho de parto e David, seu marido e ortopedista, se vê obrigado a fazer o parto por falta de outro médico especialista. Após o nascimento do primeiro filho, Paul, David percebe que a gravidez é de gêmeos e traz ao mundo uma menina, Phoebe. Ao perceber traços de síndrome de Down em Phebe e lembrar de sua própria vida ao lado da irmã, que também foi portadora da síndrome e morreu cedo, deixando a mãe desconsolada, David resolve poupar Norah e Paul do sofrimento e entrega a filha para a enfermeira levar a um abrigo para crianças retardadas. Quando Norah acorda, David não consegue contar a verdade e diz que a criança nasceu morta. Caroline, a enfermeira, não consegue deixar a menina no abrigo e, agindo pela emoção de poder ser mãe, resolve fugir com Phoebe, deixando toda a vida vazia para trás.
A falta da filha e o eterno segredo de David, fez a família se desestruturar e cair em um mar de sofrimentos. Bree, a irmã de Norah era o único laço de alegria que pairava pela casa. No outro núcleo, o amor incondicional de Caroline por Phoebe fez a vida dela florir, além de trazer para ela o grande amor, Al e grandes amigos unidos pela necessidade de apoio e pela síndrome de down.
Durante a leitura achei o livro melancólico. A vida de Norah, usando a morte da filha como desculpa para não ser feliz; a vida de David, envolvido em seus próprios medos, único sentimento que o trazia vivo e fotografando o que não existia para se sentir melhor; a beleza de Paul escondida na culpa pela infelicidade dos pais. Eu queria mesmo era ler rápido ou pular as páginas só para sentir a alegria emanada por Phoebe,Caroline e Al a cada nova descoberta sobre a vida.
Hoje, fazendo essa resenha, percebi que a melancolia de Norah, David e Paul trouxeram à tona meus próprios medos e minha solidão e por isso os personagens me incomodaram tanto. A capacidade de Caroline em dispor a própria vida pelo próximo, me fez desejar o mesmo, uma vida de verdade onde o mundo fizesse sentido. A inquietude de Bree diante da vida e a eterna alegria, muitas vezes mascarando a solidão, me fez lembrar de momentos onde eu sorri para o mundo e desejei apenas não estar ali, naquele momento. As inúmeras fotografias de David me fez perceber em quantas fotos eu sorri, registrando viagens que jamais precisaria ter feito para encontrar o real significado da vida, fotos que joguei fora sem o menor constrangimento,assim como fez Norah.
Talvez por isso o livro seja bom. Não exatamente pela capacidade literária da autora e tradutora, mas pelo poder de elevar o psicológico e trazer uma real reflexão sobre o que é importante na vida, mostrando que amar e ser amado faz a diferença e que fugir de um problema nunca irá resolvê-lo. Quem foge jamais descobrirá que o problema era apenas uma porta para um lugar melhor.
Se é bom pra ler? Claro, principalmente em um dia melancólico com um pouco de chuva.
Obs. Para os menos pacientes, acabei de descobrir que existe o filme sobre o livro.