Ler é algo maravilhoso, mas é difícil começar porque, diante de tantas opções, não sabemos qual escolher. Na maioria das vezes, nos deparamos com gostos diferentes do nosso e isso, de alguma forma, nos inibe de começar a ler.
Nas escolas nos indicam Iracema, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Mulato e alguns outros bons livro, mas que são chatos quando não pegamos o jeito de ler e abstrair o rebuscamento da época.
Por isso, decidimos criar este blog para indicar os livros que lemos, como os classificamos, fazer uma resenha, indicar sites para baixar livros, enfim, incentivar quem deseja iniciar uma boa leitura ou continuar nesse mundo de troca de informação tão brilhante.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

VENDE-SE TUDO

Gostaria de agradecer a minha amiga Alcioni que me enviou esse texto. Martha Medeiros sempre surpreende com tanta sabedoria e sensibilidade.

--------------------------

No mural do colégio da minha filha
encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
_ Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
_Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa. Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma .

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.
Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida. Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile .
Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.
Martha Medeiros

... e se só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir, é melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ !

6 comentários:

Geovana disse...

Eu já tive que deixar tudo da minha casa e recomeçar. Não tive nem oportunidade de vender, deixei lá obrigada por um Juíz que não me conhecia e não se preocupou com o duro que dei para comprá-las. Deixei pra uma mulher mentirosa e sem escrúpulos. Desde então, concordo totalmente com a Martha Medeiros: é preciso desapegar das coisas materias para dar valor às boas lembranças e valores. Nada melhor do que deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila, olhar pro marido e vê-lo orgulhoso, olhar para o entiado e ver o quanto ele me respeita. Nada melhor do que me livrar de bater boca com alguém de um nível tão baixo que eu jamais alcançaria.
Bem, este relato é uma pequena complementação do texto.
Bom dia a todos!

Alexsandra Moreira disse...

Belo texto e ensinamento para nós...

Cristiane A. Fetter disse...

Ué, você voltou para o Brasil?
Conta mais.
Beijocas

Cristiane A. Fetter disse...

Esqueci de falar,
também vendi tudo antes de vir para os EUA.
Meu marido me chama de Turca, diz que tenho sangue de negociante, risos.
Algumas coisas eu não desfiz pois faziam parte importante das nossas vidas (mas foram poucas coisas), o resto foi tudo.
E é ótimo comprar tudo novo, ou não é?
Bj

Geovana disse...

Cris, eu não viajei. Perdi o que tinha comprado com muito esforço para a mãe de meu entiado. É uma história loooonga...
Recomecei e comprei tudo novamente, se consegui uma vez porque não conseguiria recomeçar? Ela é que talvez tenha que conviver com os móveis a vida toda. Quem só sabe tomar não descobre o gosto de olhar para algo de dizer: eu comprei, é meu, foi com meu esforço.
Ah! também amo mudar tudo, mas me controlo pra não jogar fora coisas de bom uso - simplicidade voluntária.

Ana Barros disse...

De passagem pra conhecer o blog. Adorei, vou ficar sócia deste clube do livro :-)
bjos e bom Ano Novo !